Tradição da Recomenda das Almas é mantida em Tatuí
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013Em Tatuí, crianças mantêm vivo um costume religioso centenário. É a ‘Recomenda das Almas’, evento religioso ligado à igreja católica e preza pela oração às almas durante todo o período da quaresma.
O grupo de ‘recomendadores’, como são em chamados os integrantes, é formado por meninos com idades entre seis e 12 anos. Eles ainda são divulgadores da ‘catira’, uma dança do folclore brasileiro na qual o ritmo musical é marcado pela batida dos pés e mãos dos dançarinos.
Durante o período da quaresma, as visitas de recomenda são feitas duas vezes por semana aos moradores da zona rural. O grupo sai em caminhada entoando rezas cantadas. Em frente aos imóveis na cidade de Tatuí fazem o ritual religioso.
Os meninos chega nas casas sem avisar. Do lado de fora, fazem as orações. Pela tradição, os moradores devem apagar as luzes, fechar as portas e ficar em silêncio até o fim das rezas.Ao fim de cada visita, os integrantes ainda fazem uma apresentação de catira.
De acordo com o coordenador do grupo, o músico Esmeraldo Donizete da Silva, para as caminhadas da ‘Recomanda das Almas’ foram feitos ensaios. A caminhada é feita sempre durante a noite. Antes de sair para a missão, os meninos que integram o grupo recebem orientações e repassam as rezas que serão cantadas para os moradores.
O estudante Henrique Eduardo Tomaz, de 9 anos, conta que participa da recomenda das almas pela primeira vez. Para ele, os ensaios foram importantes para que se sentisse seguro para as visitas. “A gente fez ensaio, por isso, está tudo certo. Eu não preciso ficar nervoso porque já sabei todo o ritual”, diz.
O coordenador explica que a tradição é passada de uma geração para outra. Ele ressalta que tudo foi aprendido com os antigos tropeiros e há regras para serem seguidas. “Na caminhada, a gente nunca deve olhar para trás…temos que sempre procurar olhar para a frente. Também o número de casas que recebem a visita não pode ser par, tem que ser impar. Se encontrarmos outro grupo fazendo recomenda, a gente tem que esperar, não pode continuar a caminhada até eles terminarem”, explica.
A balconista Adriana de Fátima Idro conta que sempre recebeu os ‘recomendadores’ na casa dela. Devota, ela comenta que fica satisfeita quando percebe a chegada do grupo. “Eu gosto muito dessa manifestação religiosa. Acho que eles devem continuar essa tradição sempre”, afirma.
A dona de casa Tereza Lourenço também afirma que fica emocionada quando recebe a visita. “Eu morava em São Paulo e lá não existe isso. Para mim, quando cheguei aqui foi uma novidade. Desejo que essa tradição nunca acabei. Essas crianças devem passar para os outros essa manifestação quando crescerem”, diz.
O estudante José Rafael de Oliveira, de 11 anos, que integra o grupo, conta que no começo tinha receio com os cães bravos nas casas, mas, segundo ele, até os animais parecem gostar das orações. “Eles não atacam a gente. Eles acalmam e ficam lá quietinhos. Já quando os moradores abrem a porta para agradecer a visita é uma satisfação para a gente… fica mais gostosa a recomenda. Normalmente continuamos a cantar modas de viola e sempre nos oferecem um lanche. A gente come um bolo e segue a caminhada”, diz.
Para Rafael Nicásio de Souza, de 12 anos, a manifestação religiosa é um aprendizado. “A gente aprende a ter bastante devoção, a rezar bastante. Nós estamos puxando a tradição que estava ficando para trás”, diz.
Fonte: G1
